It takes two to tango

Quantas vezes a vida não parece mais estranha do que a ficção? Isso é porque toda a ficção se inspira directamente na vida! É porque somos todos medricas que costumamos optar pela ficção. Só que este blog vai optar pela vida... ou algo assim...

quarta-feira, junho 21, 2006

O verdadeiro diálogo português


Diálogo português em Portugal...

Sujeito A - Olá. Tudo bem?
Sujeito B - Tudo, tudo...
SA - Não pareces assim tão bem...
SB - Bom, acordei com uma enxaqueca. Parece que tenho um martelo a dar-me na cabeça!
SA - Ei, pá! Isso não é nada. A mim, doem-me os músculos do corpo inteiro, sinto-me esgotado e a cair de sono e ainda tenho uma consulta no dentista!
SB - Sim, mas...
SA - Mas quê? Quem me dera a tua enxaquecazinha!... Tomas um comprimido e já está. Se calhar até é psicossomático... Mas desconfio que os meus problemas são crónicos...
SB - Todos?
SA - E os que estão para chegar.
SB - Pronto.
SA - De resto, tudo bem?
SB - Acho que sim... Bom, é verdade que me telefonaram às seis da manhã no único dia em meses em que iria conseguir acordar sem despertador...
SA - Essa é boa! De que é que te queixas? Se te telefonam, é porque se lembram de ti. Além do mais, a essa hora já muita gente completou meio dia de trabalho! Queixas-te de barriga cheia.
SB - Achas mesmo? Sei lá, eu não ligo a ninguém a essa hor........
SA - Claro que sim! Imagina que tinhas sido atropelado por um camião TIR com uma carga de chumbo... Ou que te tinha caído um cometa no quarto... Ou que tinhas acordado no Índico, rodeado de tubarões, ou na Amazónia, rodeado de piranhas...
SB - Postas as coisas dessa forma...
SA - Podes crer! E de resto, tudo bem?
SB - Tudo. Salvo que a minha mulher fugiu ontem de casa com um político, deixou-me uma nota rápida a dizer que era a melhor coisa que tinha feito na vida, arrebanhou os nossos filhos e foram-se todos para parte incerta!
SA - Pensa só no que vais poupar com os miúdos! De qualquer forma, toda a gente passa por isso... Eu mesmo já deixei e fui deixado. A vida é assim. Mas queixas-te de quê, afinal?
SB - Já começo a não saber...
SA - Claro que não! A vida está mesmo é para ti, hã? Olha, não pude deixar de reparar nos teus sapatos... Não tens nada mais apresentável?
SB - Sim, sim... Mas, olha, tenho 20 euros até ao próximo ordenado. Estou a viver a sopinhas, quanto mais comprar sapatos...
SA - Lá estás tu, o eterno queixoso, é mesmo um mal português! Isso é mas é por causa da boa vida! De certeza que poderias poupar, se quisesses... Investe! Contribui para a economia! Andas a deitar dinheiro fora na má vida e é, também, por isso que estás com esse ar macilento e com essas olheiras...
SB - Achas?
SA - Tenho a certeza, fala a voz da experiência e da observação! Já não tens 20 anos. Ok? Já não tens 20 anos. Pensa mas é no futuro. A vida não é uma festa.
SB - De facto... Eu bem gostaria de colocar algum de lado, mas reduziram-me o salário em 40%, congelaram-me a progressão e já me avisaram que não vai haver subsídio de Natal...
SA - E? E??? Antes, não havia e toda a gente vivia muitíssimo bem! Foste mal habituado, o tempo das vacas gordas e isso tudo, os subsídios não são uma coisa normal. O país não está de tanga, está mas é nu! Felizmente que alguém tem coragem para tomar as medidas necessárias!
SB - Mas não vou poder pagar as contas... E, depois, caem-me em cima e não tenho salvação...
SA - Já pensaste em pedir um crédito pessoal? Hã, já pensaste? De resto, muda-te para um quarto, vende o carro e passa a andar a pé, deixa o tabaco e o café, não vás à praia de Leça em Agosto e trabalha o dia inteiro, que o trabalho é o melhor remédio para a cabeça!
SB - Mas parece-me que estou a pagar pelos erros de outros e que, esses, estão todos muito bem e de férias bem longe daqui...
SA - Bolas, pá! A inveja é mesmo bem portuguesa! Não culpes os outros pela tua vida! Nunca ouviste dizer que a vida é o que dela fazes?
SB - E que o amor é um pássaro azul num canto da madrugada...
SA - Hã?
SB - Nada. Diz lá mais... Repara que não estamos sós no mundo...
SA - Tipicamente português! Por tua causa é que não vamos para a frente! A responsabilidade? Sempre dos outros! Não, rapaz, a responsabilidade é tua, tua, tua!
SB - Não sei...
SA - Podes crer! Foste foi muitíssimo mal habituado! Só benesses, só privilégios... Não pode ser! Agora, é hora de apertar o cinto! Não produzes o suficiente, usas roupa e sapatos, bebes whisky em vez de água da torneira, tomas café em vez de chicória, metes-te a ler, a ler!... Para que é que te serve ler? O que é preciso é trabalho, ok? Ainda bem que alguém tem coragem de acabar com as benesses e os privilégios! Já era mais que tempo!
SB - Bom, já me sinto meio tonto com a conversa... Acho que vou indo...
SA - Isso, isso, não ouças as verdadinhas e foge! Vê mas é se te habituas a ser como os outros... Olha, desejo-te um óptimo dia!


Imagem de www.eichbauer.de.

1 Comments:

At 10:53 da manhã, Anonymous Ana Portela said...

Excelente! Dou aulas de português para estrangeiros, posso usar o teu texto, ô pá? Muito divertido, e bem característico. Acho que meus alunos vão gostar muito!

 

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