It takes two to tango

Quantas vezes a vida não parece mais estranha do que a ficção? Isso é porque toda a ficção se inspira directamente na vida! É porque somos todos medricas que costumamos optar pela ficção. Só que este blog vai optar pela vida... ou algo assim...

segunda-feira, janeiro 23, 2006

A esquerda elegeu Cavaco


Serei breve...
Cavaco Silva será nosso presidente (e não adianta dizer "não meu!", porque não corresponde a uma realidade institucional) provavelmente por 10 anos. Mais vale habituarmo-nos todos à ideia...
A quem cabe a responsabilidade deste resultado à primeira volta?
Diria eu, antes de mais ao "efeito Le Pen". Sem pretender comparar Cavaco a Le Pen, o que seria, convenhamos, desajustado, a semelhança situacional é, parece-me, óbvia. Uma direita unida em torno da figura de Cavaco, um candidato preparado, um candidato que, não tenhamos dúvidas, se andava há 10 anos a preparar para esta eleição. Do outro lado, uma esquerda em guerra consigo mesma, ridícula e dividida.
O que fez Mário Soares, o rei "O Fixe" que, de acordo com as suas hostes, "cumpriu a sua obrigação", candidatar-se a esta vergonha, fazendo simultaneamente uma campanha démodée, à base de ataques pessoais? O medo de uma gravata siciliana? Em último caso, uma certa vaidade de rei sem trono?
O que faz o trostskista demagógico Francisco Louçã (e, aqui, tenho que concordar com Pacheco Pereira no seu Abrupto) numa permanente posição de desafio a coisa nenhuma, arrastando consigo grupos de descontentes intelectualizados, pouco representativos das reais necessidades actuais de Portugal?
O que leva Jerónimo de Sousa a candidatar-se até ao fim, quando se lê com todas as letras qual será o desfecho eleitoral?
Fora deste saco, coloco Manuel Alegre, por ser consistente e verdadeiramente capaz de desafiar o sistema onde, no entanto, se insere; e Garcia Pereira, por se tratar de um candidato que defende com brilho ideias genuínas.

Parece-me também que, para além destes candidatos e das suas hostes, três culpados principais ganham visibilidade imediata... Um deles, o culpado invisível que terá forçado Soares a candidatar-se. Tudo se conhece: inclusive as urgências hospitalares das figuras públicas e os seus motivos mais directos. Um segundo, o partido desnorteado cujo Governo se tem dedicado a angariar antipatias, mais que não seja pela imposição de restrições para as quais não se anuncia o fim, sem que em consequência das mesmas se anteveja uma utilidade para o cidadão comum. Um terceiro, os votantes sobretudo de Mário Soares e Francisco Louçã. A direita fez apenas o que tinha que fazer. A esquerda elegeu Cavaco!
Os meus parabéns, portanto, às levas de revolucionários de café que elegeram Cavaco. Bom proveito para eles, para as tias e para as primas. Que o chá das cinco não lhes saiba amargo.

Dez anos de Cavaquistão. Inimigos da função pública no Governo e na presidência. Crise, crise, crise, crise - a palavra que nunca deixou de existir realmente em 32 anos de democracia! E os grandes cheios de soberba... E os portugueses amnésicos a argentinizar-se subrepticiamente...

Critica-se os Estados Unidos pela eleição de Bush Jr.? Chama-se aos Estados Unidos um país dividido? Olhe-se, então, para Portugal... Cavaco venceu com cerca de metade dos votos. Nós somos um país dividido. E não serei eu, nem vocês, a lucrar com isso.

2 Comments:

At 1:23 da manhã, Blogger Dani Domingues said...

caro amigo,
Tenho de discordar!
"Dez anos de Cavaquistão. Inimigos da função pública no Governo e na presidência"
Caso não saibas, os privilegios que socrates está agora a tirar à função pública, foi Cavaco que deu, numa altura em que a função pública estava completamente ao abandono, regida por uma lei do tempo da 1º republica.

E quanto ao facto de estarmos divididos: diz-me se alguma vez houve um presidente eleito unanimamente? Andou tudo à volta do mesmo!

Cumprimentos!

 
At 2:59 da manhã, Blogger Master Minder said...

"Os funcionários públicos? Temos que esperar que morram..." (ou algo assim, que isto é de memória) - quem disse? Bom, eu ainda me lembro bem dos governos do Cavaco (ainda por cima era jornalista num jornal económico na altura), por isso não tenho ilusões quanto a ele. Mas também não tenho em relação a político nenhum... Muita gente não votou no Alegre, afirmando coisas do género: "Não passa de um poeta!" Que disparate! Se calhar era de algo assim que precisávamos para alterar um bocaditito o sistema... O Garcia Pereira também é porreiro, deve ser o político que diz coisas mais acertadas, com o defeito de ter os maoistas do MRPP por trás... Mas a votação é soberana, claro. Nada contra isso. E eu já sabia que tinhas apoiado o Cavaco. Não nos zanguemos por isso! Preocupa-me mais que as pessoas gostem ou não dos pedaços de literatura que escrevo - bem mais interessantes, espero... Abraço. :)

 

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